sábado, 24 de março de 2007

Nadando contra a correnteza (1)

Os capítulos 5, 6 e 7 do evangelho de Mateus nos trazem o chamado “Sermão do Monte”. O que este sermão tem de mais peculiar é a forma como ele contrasta seus ensinos com o pensamento da nossa sociedade. Tanto isso é verdade que ele foi chamado de “a contra-cultura do reino”.
Vejamos hoje por exemplo, os versículos de 1 a 12 do capítulo 5: as Bem-aventuranças. Jesus profere nove “razões de felicidade” para uma multidão desesperançada e cansada de tantos sofrimentos. Todos sabemos que quando lidamos com pessoas entristecidas, precisamos ter cuidado para não proferir palavras vazias e que possam aumentar ainda mais o sofrimentos delas. Jesus também sabia.
As Bem-aventuranças
1 Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou. Seus discípulos aproximaram-se dele, 2 e ele começou a ensiná-los, dizendo:3 “Bem-aventuradosa os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos céus.4 Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.5 Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança.6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.7 Bem-aventurados os misericordiosos, pois obterão misericórdia.8 Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.9 Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.10 Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.11 “Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. 12 Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a sua recompensa nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes de vocês.
Primeiro, a pobreza social pode ser penosa, mas a pobreza espiritual é motivo de felicidade. Significa o reconhecimento pessoal de não somos nada diante da grandeza do nosso Deus, e que precisamos do insumo dEle em nós, caso contrário, nosso espírito permanece vazio.
Segundo, o choro é uma declaração de que, de alguma forma, está doendo. Significa que a ordem da normalidade foi alterada e isso me encomoda. Mas, o choro que vale a pena é aquele que espera pelo consolo do alto, e não das soluções próprias. É o choro dependente como o da criança que quer apenas os braços do pai.
Terceiro, humildade é algo constantemente confundido com moleza ou mesmo alguém com vocação pra capacho. Ledo engano. Humildade é a capacidade de submeter-se a Deus mesmo nas questões mais humanas. É sofrer o dano mesmo estando com a razão, e confiar que o Senhor restituirá nossa herança no final.
Quarto, vivemos em uma sociedade na qual se alguma coisa não é ilegal, tudo bem, mesmo que não seja moral ou mesmo ético. Nosso “senso de justiça” é algo torcido para os nossos interesses. A mesma sociedade que aplaude a prisão de políticos corruptos, faria o mesmo se estivesse no lugar deles! Mas, aquele com sede real de justiça almeja a chegada do dia em que o mundo se curvará diante do Filho de Deus, o Sol da justiça, a Estrela da Manhã.
Quinto, misericórdia pedimos, mas oferecemos também? Esta é a preocupação deste ensino do Senhor. Advertir-nos de uma atitude de apenas tomar, mas não dar. Misericórdia, a propósito, é quando não recebemos o que merecemos, por exemplo, a disciplina na mesma proporção do nosso pecado; em contraste com a graça que é recebermos o que não mereçemos, por exemplo, a nossa salvação.
Sexto, eis aqui uma coisa rara: pureza de coração. Essa é a qualidade que faz a pessoa sempre esperar o melhor dos outros, bem como desejar o melhor para os outros. Também é não buscar sempre o que é de seu interesse apenas ou aquilo que pode lhe trazer benefícios, mas olhar com olhos de bondade ao seu redor.
Sétimo, a vez dos pacificadores... Aqueles que buscam sempre a conciliação, o acordo o acerto. Espécime rara e que parece em extinção em nosso mundo. Hoje ao lado dos encrenqueiros e dos que se-me-cutucar-você-vai-ver, você acha muitos espectadores passivos, porém, muito poucos dispostos a “sujar as mãos” e buscar a paz entre as partes. Somos chamados para isso. Inclusive quando estamos aconselhando ou discipulando, muitas vezes seremos colocados diante de uma situação de discórdia. Não tome o lado de ninguém, antes, promova a paz.
Oitavo, por vivermos nun mundo injusto, promover a justiça poderá chatear algumas pessoas. Prepare-se para ser perseguido. Levantar-se pelo que é certo pode ser difícil muitas vezes, mas é algo pelo qual seremos recompensados pelo Senhor.
Nono, Jesus sabia que em meio àquela multidão se encontravam alguns dos que seriam seus discípulos mais fiéis. Ali estavam os que mudariam o mundo. Mas, mudanças não vêm sem preço. Eles pagariam alto. Por isso, Jesus lhes diz que o preço da mudança pode ser o sofrimento pessoal e a perseguição, mas a recompensa é real e grandiosa para nós. Na verdade, quando somos perseguidos, nós entramos numa galeria muito especial na companhia de profetas do passado. Lá encontramos Elias, Eliseu, Jeremias e outros. Que enorme honra!
Por outro lado, que contraste com o que muitas vezes almejamos para nós. Queremos conforto, queremos ser aceitos e amados, queremos aplausos, queremos paz! Realmente parece que lemos um evangelho diferente do que Jesus pregou. Ora, se já no início do Seu ministério Ele nos adverte que seremos felizes por sermos perseguidos, porque esperamos felicidade por sermos bem-sucedido, por tudo dar certo em nossas vidas, por termos paz e tranqüilidade?
O grandioso contraste das bem-aventuranças é que elas não batem com aquilo que o homem comum entende como motivo de felicidade. Ser humilde? Ser pobre? Chorar? Sofrer perseguição? Bah! Isso é para os coitados. Nós? Nós somos “mas que vencedores!!!”
Amados, o que não compreendemos é que temos olhado a vitória que a Palavra de Deus nos coloca com olhos mundanos, olhos carnais. Quando olharmos com olhos espirituais veremos que mesmo injustiçados, somos vitoriosos, mesmo sofrendo, somos vitoriosos, mesmo humilhados, somos vitoriosos,.... somos bem-aventurados, somos mais do que vencedores. Apenas vencer no âmbito humano é apenas ser vencedor. Vencer, mesmo quando colocam uma cruz nas suas costas, isso sim, é ser mais do que vencedor.
Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. De todos os lados somos pressionados, mas não desanimados; ficamos perplexos, mas não desesperados; somos perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos. Trazemos sempre em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida de Jesus também seja revelada em nosso corpo.” (2 Coríntios 4.7-10)


Nas Garras da Graça, Pr. Joversi Ferreira*.
*Pr. Joversi Ferreira é o convicto pastor da Comunidade Batista Videira.
publicado originalmente em 14/01/07

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