sábado, 16 de maio de 2015


ELE DESCEU AO INFERNO?

(por Joe Rigney)

 
 
Então José comprou um lençol de linho, baixou o corpo da cruz, envolveu-o no lençol e o colocou num sepulcro cavado na rocha. Depois, fez rolar uma pedra sobre a entrada do sepulcro. (Marcos 15.46)

Nós todos sabemos que Jesus morreu. "‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Tendo dito isso, expirou." (Lucas 23.46). Mas o que aconteceu depois que ele morreu? Sabemos que o seu corpo foi colocado no sepulcro de José, mas e quanto à sua alma humana?

Refletir sobre esta questão não só lança luz sobre o ensino da Bíblia sobre a morte e a vida após a morte, mas também é um grande incentivo para nós, que teremos que enfrentar a morte e devemos fazê-lo sem medo.

 
O que é a morte?

Em primeiro lugar, o que exatamente é a morte? A morte é a separação, a divisão das coisas que devem estar unidas. Fundamentalmente, é a separação de Deus. Paulo sugere isso em Efésios 2.1-2a: " Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados nos quais costumavam viver". Viver no pecado é estar morto, é ser escravizados pelos poderes das trevas, é estar separado de Deus, é ser filhos da sua ira. Este tipo de separação é um estranhamento, uma hostilidade, uma alienação da vida e da esperança do Deus vivo. Neste sentido, todos nós, por natureza, nascemos mortos; e é essa a morte que Jesus sofreu em seu sofrimento na cruz.

Mas, claro, a morte é mais do que apenas a separação de Deus. Morte também marca a separação de alma e corpo. Deus fez os seres humanos para serem almas incorporadas e corpos “almados”, e a morte rasga esta união em pedaços. Mas o que acontece com essas duas partes depois que são separadas? O Salmo 16.10 nos dá uma janela para o ensino bíblico.

           Tu não me abandonarás no sepulcro (Sheol),

                    nem permitirás que o teu santo sofra decomposição.

Esta passagem nos direciona para o relato normal do que acontecia quando um ser humano morria antes da morte e ressurreição de Jesus. A alma fera abandonada "à sepultura", e o corpo experimentou corrupção ou deterioração.

Em Atos 2.29-31, Pedro nos diz que Davi, ao ter escrito este salmo, previu a ressurreição de Cristo, “que não foi abandonado no sepulcro (ou seja, sua alma não foi), cujo corpo não sofreu decomposição” (perceba que Pedro lê a segunda linha como uma referência ao corpo ou à carne de Jesus). Assim, antes de Jesus, na hora da morte, as almas normalmente iriam para o Sheol (Sepultura), e os corpos (carne) deterioravam. Estamos todos familiarizados com o último, mas o primeiro é mais opaco. Um estudo bíblico rápido vai nos mostrar porque Peter pensa que a profecia de Davi no Salmo 16 é uma boa notícia.

 O que é Sheol?

 No Antigo Testamento, Sheol é o lugar das almas dos mortos, tanto de justos (como Jacó, Genesis 37.35, e Samuel, 1 Samuel 28.13-14) como de ímpios (Salmo 31.17). No Novo Testamento, a palavra hebraica Sheol é traduzida como Hades, e a descrição do Sheol no Antigo e no Novo Testamento tem algumas semelhanças com o Hades da mitologia grega. É debaixo da terra (Números 16.30-33) e é como uma cidade com portões (Isaías 38.10) e barras (ou portas) (Jó 17.16). É uma terra de escuridão, um lugar onde as sombras, as almas sombrias dos homens, habitam (Isaías 14. 9; 26.14). É a terra do esquecimento (Salmo 88.12), onde nenhum trabalho é feito e nenhuma sabedoria existe (Eclesiastes 9.10). Mais significativamente, Sheol é um lugar onde ninguém louva a Deus (Salmo 6.5; 88.10-11; 115. 17; Isaías 38.18).

 No Novo Testamento, a representação mais ampla da vida após a morte é encontrada em Lucas 16.19-31. Ali ficamos sabendo que, como o Hades da mitologia grega, o Sheol bíblico tem dois compartimentos: Hades em si (onde o homem rico é enviado, Lucas 16.23) e "seio de Abraão" (onde os anjos levam a Lázaro, Lucas 16.22 ). O Hades em si é um lugar de tormento, onde o fogo provoca angústia para as almas encarceradas lá. O “seio de Abraão”, por outro lado, mesmo que ao alcance dos gritos vindos do Hades, é separado por um grande abismo (Lucas 16.26), e é, como o grego Elysium, um lugar de conforto e descanso.

 Embora muito do mistério permaneça, a imagem começa a tomar forma. Todas as almas mortas descem ao Sheol / Hades, mas o Sheol é dividido em duas partes distintas, uma para os justos e outra para os ímpios. Os justos que morreram antes de Cristo habitavam no Sheol com Abraão, e embora eles tenham sido cortados da terra dos viventes (e, portanto, do culto do Senhor na terra), eles não foram atormentados como os ímpios foram.

 
Para onde Jesus foi quando ele morreu?

O que, então, que isso nos diz sobre o local onde Jesus foi no Sábado Santo? Com base nas palavras de Jesus ao ladrão na cruz em Lucas 23.43, alguns cristãos acreditam que após a sua morte, a alma de Jesus foi para o céu para estar na presença do Pai. Mas Lucas 23.43 não diz que Jesus estaria na presença de Deus; diz que ele estaria na presença do ladrão ("Hoje estarás comigo no Paraíso"), e com base no Antigo Testamento e Lucas 16, parece provável que o ladrão (agora arrependido) estaria ao lado de Abraão, um lugar de conforto e descanso para os justos mortos, que aqui Jesus chama de "Paraíso".

 Depois de sua morte pelo pecado, então, Jesus viaja para o Hades, à cidade da Morte, e arranca das dobradiças os seus portões. Ele liberta Abraão, Isaque, Jacó, Davi, João Batista, e o resto de fiéis do Antigo Testamento, resgatando-os do poder do Sheol (Salmo 49.15; 86.13; 89.48). Eles haviam esperado lá por tanto tempo, sem terem recebido o que foi prometido, para que assim seus espíritos fossem aperfeiçoados juntamente com os santos da Nova Aliança (Hebreus 11.39-40; Hebreus 12.23).

Depois de sua ressurreição, Jesus sobe ao céu e traz os mortos resgatados consigo, de modo que agora o Paraíso não é mais para baixo perto do lugar de tormento, mas está no terceiro céu, o mais alto dos céus, onde Deus habita (2 Coríntios 12.2-4).

 Agora, na era da igreja, quando os justos morrem, eles não são meramente levado pelos anjos para o seio de Abraão; eles partem para estar com Cristo, que é muito melhor (Filipenses 1.23). Os ímpios, no entanto, permanecem no Hades em tormento, até o julgamento final, quando o Hades dá os mortos que habitam ali, e eles são julgados de acordo com as suas obras, e, em seguida, a Morte e o Hades são jogados no inferno, no lago de fogo (Apocalipse 20.13-15).

 
Boa notícia para nós

Que implicações que isso tem para a Semana Santa? A jornada de Cristo ao Hades demonstra que ele foi de fato feito semelhante a nós em todos os sentidos. Não só ele realmente suportou a ira de Deus em nosso favor; ele suportou a morte, a separação de sua alma de seu corpo. Seu corpo estava na tumba de José (Lucas 23.50-53) e sua alma esteve três dias no Sheol, no coração da terra (Mateus 12.40).

Mas como o Salmo 16 deixa claro, Jesus não é apenas como nós, mas diferente. O corpo de Jesus foi sepultado, como o nosso, mas não apodreceu. A alma de Jesus foi para o Hades, como os santos do Antigo Testamento, mas não foi abandonada lá. Deus o ressuscitou dentre os mortos, reuniu sua alma com um corpo glorificado, de modo que ele é as primícias da colheita da ressurreição.

E isso é uma boa notícia para nós porque aqueles que estão em Cristo agora “pulam” a terra do esquecimento, onde ninguém louva a Deus. Em vez disso, quando morremos, nós nos juntamos com o coro angelical e os santos do passado para cantar louvores ao Cordeiro que foi morto por nós e pela nossa salvação.

O Senhor ressuscitou. O Senhor ressuscitou verdadeiramente.
 
Joe Rigney (@joe_rigney) é Professor Assistente de Teologia e Cosmovisão Cristã na Bethlehem College and Seminary e autor de Live Like a Narnian: Christian Discipleship in Lewis’s Chronicles (Viva como um narniano: O Discipulado Cristão nas Crônicas de Lewis) e The Things of Earth: Treasuring God by Enjoying His Gifts (As coisas da Terra: Valorizando Deus ao Desfrutar dos Seus Dons). Ele é pastor na Cities Church.